Cadernos da Juventude Carioca

Quem melhor entende os jovens, se não eles mesmos? Foi respondendo a essa pergunta que, desde 2013, trezentos e quarenta jovens com idades entre 14 e 24 anos foram os protagonistas de um processo de pesquisa sobre juventude, em quarenta comunidades pacificadas do Rio de Janeiro. O projeto ‘Agentes de Transformação’, desenvolvido pelo Instituto Pereira Passos (IPP) em parceria com Instituto TIM, culminou na publicação ‘Cadernos da Juventude Carioca’, lançado no dia 21 de dezembro, no Museu de Arte do Rio (MAR).

Durante os quatro anos de projeto, os jovens foram às ruas com tablets nas mãos para perguntar aos moradores das comunidades questões como “Quais são seus sonhos?”, “O que você faz nas horas livres?”, “Como você se relaciona com sua família?”, “Quais são os principais problemas que enfrenta no dia a dia?” e muitas outras. O jovem é não só o pesquisador, como o maior beneficiado da pesquisa, já que o objetivo foi reunir informações que possam subsidiar estratégias para a melhoria da vida deles mesmos.

Afinal, para elaborar políticas públicas efetivas é preciso se embasar em demandas reais. Para Elen Barreto, Coordenadora de Políticas e Ações Intersetoriais da Secretaria Municipal de Saúde, o Caderno da Juventude Carioca pode contribuir com as ações territorializadas de saúde. “Este trabalho mapeia dentro da cidade o que precisa de mais atenção em cada área. As demandas de uma menina em Santa Cruz são diferentes das demandas de uma menina em São Conrado, por exemplo, a cidade não é igual em todos os cantos. Com o fortalecimento da atenção primária, queremos cada vez mais criar estratégias otimizadas para cada território, sempre seguindo as políticas públicas da cidade como um todo. Esse material pode nos ajudar nisso”, explica Elen.

Segundo Mauro Osorio, presidente do IPP, o material tem mesmo esse papel. “O conjunto da publicação lança luz sobre a vida da juventude em áreas de menor renda da cidade do Rio de Janeiro, oferecendo elementos fortes para o desenho de políticas públicas e servindo como subsídio para pesquisas em geral”, relata.

Capacitação e o Sistema Para Pesquisa

Capacitados em temas como metodologia de pesquisa, noções de estatística, políticas públicas, direitos humanos e cidadania, os jovens se envolveram ativamente na construção e aplicação dos questionários, recebendo uma bolsa durante todo o processo. O sistema  ‘Para Pesquisa’ foi desenvolvido pelo Instituto TIM especialmente para o projeto e é um software livre para elaboração de formulários de pesquisa. Disponível para sistema operacional Android, ele pode ser utilizado gratuitamente por instituições e empresas interessadas em realizar diagnósticos nas áreas de saúde, educação, moradia e meio ambiente.

A publicação

Os resultados apurados na pesquisa Agentes de Transformação estão apresentados na publicação divididos em quatro blocos – Identidade; Educação, Trabalho e Família; Estilo de Vida e Jovens no Degase.

O primeiro bloco trata dos temas gênero e cor e apresenta diferenças relevantes entre jovens do sexo masculino e feminino e entre jovens negros e brancos. No segundo bloco são apresentados resultados sobre educação, mercado de trabalho, domicílio e núcleos familiares. O bloco mostra, por exemplo, taxas de distorção idade-série e de abandono de estudos.

Na área Estilo de Vida são apresentadas as formas como os jovens passam o tempo livre e que espaços frequentam, além de temas como vida sexual, violência e consumo de álcool e drogas ilícitas.

Os Cadernos encerram com uma breve apresentação dos dados coletados entre jovens que cumprem medidas socioeducativas de internação em unidades do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Novo Degase), no Rio de Janeiro. A pesquisa foi realizada pelo IPP e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com o apoio da Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire, e o objetivo foi comparar os perfis dos jovens internados com os dos jovens que vivem nas comunidades.