Envelhecimento: uma conquista social

O prolongamento da vida, decorrente de melhorias no acesso à saúde, leva a um cenário desafiador para as políticas públicas nas próximas décadas: o envelhecimento populacional. Em 1940, os idosos representavam 4,1% do total de brasileiros e, em 2010, 10,8%, de acordo com o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em valores absolutos, esta população aumentou de 1,7 milhões de pessoas para 20,6 milhões, no mesmo período. E a perspectiva é que, até 2020, esse número salte para 30,9 milhões de pessoas com mais de 60 anos.

O desafio é ainda maior considerando-se a diversidade desse grupo. O Estatuto do Idoso (Lei 10.741, de 1º de outubro de 2003) e a Política Nacional do Idoso (Lei 8.842, de 4 de janeiro de 1994) definem como população idosa a de 60 anos ou mais. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como parâmetro a idade de 60 anos ou mais, em países em desenvolvimento, e 65 anos ou mais, em países desenvolvidos. A classificação é fundamental para a realização de estudos e para o planejamento de políticas públicas, mas está longe de esgotar as especificidades de um grupo tão heterogêneo.

O Dia Internacional do Idoso, celebrado em 1º de outubro, é oportunidade para chamar a atenção para um grave problema: o estigma e o preconceito em relação a idosos. A OMS reconhece que estereótipos influenciam comportamentos individuais e coletivos, políticas públicas e até o desenvolvimento de pesquisas científicas. E aponta que idosos com atitudes negativas em relação ao envelhecimento vivem até 7,5 anos menos que aqueles que reconhecem o lado positivo desta fase da vida.

A situação é tão alarmante que a OMS aproveita a data para lançar a campanha Take a Stand Against Ageism, em defesa dos idosos. A iniciativa ressalta as importantes contribuições de idosos para a sociedade e busca aumentar a consciência a respeito das questões e dos desafios enfrentados por essa parcela da população. Durante muito tempo, existiu uma visão generalizada dos idosos como dependentes e vulneráveis, tanto economicamente quanto do ponto de vista social e da saúde. Essa percepção negativa, que destaca a fragilidade e a improdutividade, é incapaz de definir a totalidade do grupo e precisa ser superada.

Os idosos de hoje

Diante das melhores condições de saúde, apoiadas por novas tecnologias da medicina preventiva, acesso a infraestrutura de saneamento e novos hábitos, essa fase da vida está mudando. Muitos já a encaram como o momento ideal para a busca por satisfação pessoal, após a aposentadoria. Em vez de um peso para os mais jovens, o envelhecimento populacional passa a ser visto como uma conquista social, como expressa o Plano de Ação Internacional para o Envelhecimento, lançado em 2002, em Madri.

As políticas públicas precisam estar direcionadas, portanto, para idosos que vivem com total autonomia e capacidade de contribuir social e economicamente com seu país e sua família, mas também para aqueles que requerem cuidados especiais, que ainda representam um número significativo. De acordo com o IBGE, 3,1 milhões de idosos não conseguem realizar atividades básicas sozinhos, como se alimentar ou tomar banho, e dependem da família. Há ainda aqueles que não dispõem de renda para se manter. A queda nas taxas de fecundidade representa um desafio a mais, uma vez que muitos dos idosos das próximas décadas tendem a não ter o apoio de filhos.

Preservar a autonomia e a independência funcional são compromissos do Sistema Único de Saúde (SUS) com a população brasileira. E toda a sociedade deve colaborar para que haja condições para se envelhecer com saúde e cidadania.