Promoção de Saúde nos Terreiros

Por: Felipe Soares

Promoção da saúde se faz de muitas formas, em muitos lugares e com muitas mãos: na unidade de saúde, nas escolas, nas praças, nas esquinas, nos pátios e em espaços religiosos. Para além de crença e fé, esses espaços são, também, locais onde são trabalhadas questões de cidadania, acolhimento e direitos humanos.

Por meio de suas práticas e rituais e de sua visão de mundo integradora, as religiões de matrizes africanas possibilitam a inclusão de grande parcela da população, que encontra nos terreiros ou casas de santo, a possibilidade de vivenciar relações humanas e espirituais em um espaço de cuidado e solidariedade. Para as religiões afro-brasileiras esses lugares são utilizados como ponto de cuidado que vai desde o banho de ervas ao cuidado mental e acompanhamento emocional – “o equilíbrio é restabelecido pelas práticas rituais, pelo reforço do axé (energia vital)” – Atagbá – Guia para Promoção da Saúde.

A partir da prática religiosa e do senso de comunidade, a religião dá sentido à vida diante do sofrimento e constitui lugar de tratamento, de ressignificação da experiência da enfermidade, integrando uma rede de suporte em saúde, ajudando no restabelecimento e propiciando melhor resposta a tratamentos da medicina oficial.

Com base neste entendimento, é necessário reconhecer os espaços de terreiro como um parceiro da unidade de saúde, de extensão de cuidado e atenção à saúde. Sendo fundamental formar nas unidades de saúde equipes sensíveis, que por meio da escuta e do respeito, sejam capazes de cuidar de forma integral do sujeito, respeitando sua história de vida, seus preceitos e práticas religiosas; considerando as diferenças e buscando reduzir as desigualdades por meio do diálogo entre o conhecimento biomédico e os saberes populares e trazendo as pessoas de terreiro pra dentro das unidades, garantindo o acolhimento sem estigma e sem preconceito.

Atenta às urgências dessa integração entre terreiro e unidades de saúde, a Secretaria Municipal de Saúde da Cidade do Rio de Janeiro (SMS/PCRJ) é parceira da Renafro – Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras – que tem como objetivo valorizar e utilizar os saberes dos terreiros em diálogo com o Sistema Único de Saúde (SUS); e apoiou a produção do Guia para Promoção de Saúde nos Terreiros – Atagbá – que se encontra disponível em: https://issuu.com/asasrio/docs/atagba.

Para Ana Maria de Castro, Assessora da Superintendência da Promoção da Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, o direito de atendimento igualitário deve ser mantido, levando em consideração a diversidade dos usuários sem distinção: “entre os atributos da Atenção Primária em Saúde cabe considerar a competência cultural das comunidades onde se inserem os serviços de saúde; e a diversidade religiosa dos grupos sociais precisa ser considerada e respeitada. Ainda considerar que o Estado é laico e os serviços de saúde precisam garantir acesso aos cuidados de saúde de todos os grupos, sem distinções”.

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