Saúde da Família nos Quilombos

Um novo território passou a fazer parte da rotina do Centro Municipal de Saúde (CMS) Cecília Donnngelo, em Vargem Grande: uma floresta que abriga 300 famílias organizadas em sete núcleos separados por, pelo menos, um quilômetro de distância. É a comunidade quilombola Cafundá Astrogilda, a primeira da cidade do Rio de Janeiro a ser atendida pelo Programa Saúde da Família.

A novidade é resultado da articulação da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-Rio) com a associação de moradores Quilombo Vargem, que representa os integrantes da comunidade. A enfermeira Rejane Lopes, gerente do Programa Saúde da Família no CMS Cecília Donnangelo, conta que a extensão do território e a diversidade de sua população foram os desafios que impulsionaram a criação, em setembro, da Equipe Quilombo, formada por um médico, um enfermeiro, um técnico de enfermagem e cinco agentes comunitários de saúde.

“O território atendido pelo nosso Centro Municipal de Saúde é muito vasto e diverso. Para conhecer as especificidades da população local, promovemos, em 2015, um encontro entre os profissionais da unidade de saúde, a população do território, representada por entidades locais, e a SMS-Rio. O secretário municipal de Saúde Daniel Soranz esteve presente na reunião e pôde conversar diretamente com os moradores para entender suas demandas de saúde. Percebemos, então, a necessidade de expandir a cobertura do Programa Saúde da Família para o quilombo Cafundá Astrogilda e outras comunidades da região”, lembra Rejane.

De lá para cá, a mobilização ganhou força a partir de outras articulações, como o grupo de trabalho criado pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e a SMS-Rio para discutir localmente o Plano Municipal de Igualdade Racial do Rio de Janeiro, ainda em processo de construção. Agora, as 300 famílias quilombolas que vivem na comunidade Cafundá Astrogilda estão em processo de cadastro no Programa Saúde da Família.

“É a primeira vez que uma política pública chega, de fato, ao nosso território. O trabalho da Equipe Quilombo será fundamental para garantir a saúde de nossa população, uma vez que muitas pessoas quase não saem da comunidade. Estão previstas, inclusive, visitas domiciliares a idosos e pessoas com dificuldades de locomoção. Tudo isso é inédito por aqui”, relata Sandro da Silva Santos, secretário da associação Quilombo Vargem.

Expansão da Estratégia Saúde da Família

A chegada do Programa Saúde da Família à comunidade quilombola Cafundá Astrogilda é uma das faces da expansão da cobertura da rede municipal de saúde do Rio de Janeiro. A Equipe Quilombo passa a atender, também, todo o território no entorno da comunidade . Além disso, a mesma mobilização resultou na criação de mais uma Equipe de Saúde da Família, para a comunidade Cascatinha. Estima-se que cada nova equipe irá atender, pelo menos, 3.500 pessoas na região.

“Tudo isso só foi possível com o comprometimento da SMS-Rio e o apoio da enfermeira Carla Valéria Farias, diretora do Centro Municipal de Saúde Cecília Donnangelo. Agora, estudamos a expansão do Programa Saúde da Família para o quilombo Camorim, também nesta região”, afirma Rejane.

Comunidades quilombolas cariocas

Na definição da Fundação Cultural Palmares, “quilombolas são descendentes de africanos escravizados que mantêm tradições culturais, de subsistência e religiosas ao longo dos séculos”. Hoje 2.600 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação estão espalhadas por todo território nacional – quatro delas na cidade do Rio de Janeiro. No Parque Estadual da Pedra Branca, em Vargem Grande, estão as comunidades Cafundá Astrogilda e Camorim. Além delas, o Rio abriga a comunidade Sacopã, na Lagoa, e a Pedra do Sal, na Zona Portuária.