Cigarro afeta mais os mais pobres

O Brasil tem uma das políticas de controle do tabagismo mais exitosas do mundo. Nos últimos 20 anos, por exemplo, o número de brasileiros fumantes foi reduzido à metade. No entanto, esse avanço tão importante para a saúde pública ainda ocorre de forma desigual entre as classes sociais e o tabagismo permanece como um problema grave para o Brasil, sobretudo entre as pessoas mais pobres. A conclusão é da pesquisa Impostos sobre o tabaco e políticas para o controle do tabagismo no Brasil, México e Uruguai – resultados do Brasil, desenvolvida pelo Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), em parceria com a Aliança de Controle do Tabagismo (ACT-Br) e a Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“A pesquisa revela que pessoas pobres e com baixo nível de escolaridade estão mais sujeitas ao tabagismo – e que essa tendência deve aumentar. Estar atento a essa realidade é fundamental para desenvolver políticas e programas mais efetivos para a prevenção e fim do tabagismo”, aponta Ana Helena Rissin, coordenadora do Programa de Controle de Tabagismo da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

O estudo aponta que apesar de o Brasil ter registrado queda dos índices de tabagismo em todos os grupos de escolaridade entre 1989 e 2008, esta redução foi bem menos expressiva entre pessoas com menos de um ano de universidade. E entre as pessoas com 15 anos de idade e menos de sete anos de escolaridade o percentual de fumantes é o dobro do observado no grupo de pessoas que frequentaram a universidade por pelo menos um ano.

Os dados da pesquisa indicam, ainda, que a chance de pessoas com menos de oito anos de estudo morrerem por uma das quatro principais doenças relacionadas ao fumo – câncer de pulmão, doença isquêmica do coração, doença cerebrovascular e doença pulmonar obstrutiva crônica – é o dobro em comparação a quem tem oito anos de estudo.

Quando são analisados os indivíduos com mais de 15 anos de idade, verifica-se que há mais fumantes na medida em que se tem menor renda. Consequentemente, os mais pobres também estão mais sujeitos ao fumo passivo, em casa e no trabalho, aponta a pesquisa.

O impacto desigual entre as classes sociais é consequência de uma série de fatores. Dentre eles, destacam-se o fato de o cigarro ser um produto barato e, por isso, facilmente acessível pelas pessoas com menor poder de compra. Além disso, as estratégias de marketing e de publicidade da indústria tabagista têm maior receptividade entre os mais pobres e as informações sobre os malefícios que o fumo traz para a saúde são menos disponíveis para as classes menos abastadas. Esta constatação reforça a importância das atividades educativas realizadas nas Clínicas da Família, que podem divulgar informações e promover uma reflexão crítica sobre as propagandas.

“Na medida em que os indivíduos pobres são os mais sensíveis ao custo do tabaco na hora de decidir se vão ou não fumar, o estudo sugere que o aumento dos impostos sobre o cigarro pode ter impactos positivos para a redução do tabagismo, sobretudo na dimensão das desigualdades socioeconômicas que envolvem o problema. Esta é uma política que já está sendo adotada em muitos países e esperamos que o Brasil participe desse movimento”, declara Ana Helena.

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Acesse o site da Aliança de Controle do Tabagismo (ACT-Br)
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